O Século Chinês: Será a relação China-Brasil uma amostra da nova governança global?

Por Evodio Kaltenecker, Ph.D.

A ascensão Chinesa no Brasil

A natureza odeia o vácuo e as superpotências globais também. Deste modo, o vazio geopolítico deixado pelos Estados Unidos está aparentemente sendo preenchido pela China [1]. Por exemplo, em 2009 o gigante asiático tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil e o investimento direto chinês no Brasil começou a crescer por volta de 2010 [2], como parte de uma estratégia definida pelo governo daquele país para aumentar sua segurança alimentar e energética através de aquisições e investimentos no exterior. O Brasil desempenha um papel regional importante, dado o seu peso econômico e a sua influência política; portanto, uma parceria com a China altera a paisagem geopolítica na América Latina. O aumento dos investimentos no Brasil representa uma mudança significativa na política externa de Pequim. Desde 2005 a China emprestou mais de US$ 140 bilhões para a América Latina, sendo quase a metade disso para a Venezuela [2]. No entanto, cada vez mais Pequim está se distanciando da Venezuela e de outros aliados tradicionais da região, como o Equador, para países com uma base financeira mais sólida e maiores possibilidades estratégicas. Como consequência, Pequim mudou seu foco para o Brasil. A parceria funciona como um casamento entre dois países emergentes – a China, líder global com forte base industrial e invejável crescimento econômico -, e o Brasil, potência regional rica em recursos naturais e energéticos. Por fim, investir no Brasil está alinhado com a estratégia de aumentar a exportação chinesa para outros países da América Latina.

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Como atualmente os Estados Unidos não demonstram possuir grandes interesses na América Latina, a entrada chinesa não encontra oposição [3] [4].  Consequentemente, o surgimento da China como um rival econômico para os Estados Unidos na América Latina é natural e o rápido aumento e a escala do investimento chinês no Brasil não deveria ser surpresa. Um claro exemplo da transformação da América Latina em uma zona de influência econômica e política de China é o convite, para alguns países da América Latina e do Caribe, para participar da iniciativa chinesa “Nova Rota da Seda” (adaptação do termo One Belt, One Road), como parte de um acordo para aprofundar a cooperação econômica e política com a região [5]. Portanto, o convite mostra que a China está usando seu poderio econômico para trazer a região para sua área de influência e faz parte de uma política externa chinesa mais agressiva na América Latina, uma parte do globo onde historicamente a influência dos Estados Unidos sempre foi muito forte.

Críticos da política norte-americana para a América Latina estão corretos ao afirmar que os países da região têm poucas alternativas a não ser buscar os investimentos chineses. Em primeiro lugar, a capacidade de investimento do governo brasileiro é baixa e a China possui capital, tecnologia e capacidade de construção. Em segundo lugar, a China se torna um investidor atraente porque seus projetos são concluídos em uma velocidade incomum para os países em desenvolvimento. Em terceiro lugar, o capital chinês não está vinculado às condições vinculadas à governança transparente e às políticas fiscais conservadoras. Instituições multilaterais de crédito tais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional impõem essas condições para financiamento de projetos de infraestrutura, porém poucos países latino-americanos passam pelos rigorosos padrões de empréstimos. Adicionalmente, a China parece ter uma abordagem diferente da qual o investidor de estilo ocidental está acostumado, porque os empréstimos chineses geralmente assumem a forma de “capital paciente”, o que tende a se alinhar melhor com os objetivos de desenvolvimento de longo prazo dos tomadores de empréstimo, evitando os ciclos voláteis de aceleração e desaceleração tão frequentas da América Latina. Por fim, as empresas chinesas não estão enfrentando a mesma resistência política no Brasil para seus investimentos como enfrentam em outros países, como a Austrália, onde foram impedidas de investir em empresas agrícolas e de transmissão de energia.

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Geopolítica: o que a China realmente quer?

Não se pode negar que o investimento chinês não apenas apoia a construção de infraestrutura necessária dos países latinos, mas também impulsiona as exportações e o comércio exterior da China, muitas vezes com o financiamento das grandes obras civis vinculado à contratação de empreiteiras e fornecedores de equipamentos chineses. Para suportar o seu desenvolvimento econômico, a China necessita de recursos naturais. Além disso, o país precisa alimentar sua imensa população e para isso importa grãos e carnes do Brasil e de outros países latino-americanos. Os vastos recursos naturais brasileiros, a carne argentina e o petróleo venezuelano, neste contexto, são fundamentais para a economia chinesa. No entanto, a inserção desse país na América Latina também serve como um indicador do interesse da China pelo resto do mundo. O aumento do soft power de Pequim em todo o planeta é o motivo mais nítido. O país está comprando influência geopolítica ao mesmo tempo em que coloca de escanteio os Estados Unidos [6]. É interessante notar que a China investe tanto no comércio quanto na influência geopolítica, impulsionando o livre comércio e o multilateralismo, como os Estados Unidos fizeram no século passado.

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Dada a crescente expansão da China no Brasil, os dois países podem desenvolver posições que são amplamente impopulares no Ocidente. Por exemplo, ambos possuem interesses compartilhados em termos de promoção de suas respectivas agendas econômicas e políticas, bem como a abordagem da questão da mudança da governança global. Nesse caso, a reforma significa  transformação da ordem global existente para uma caracterizada pela multipolaridade. Essencialmente, a parceria estratégica sino-brasileira é baseada em suas identidades compartilhadas de países em desenvolvimento, com magnitude geográfica considerável, e com desejo de aumentar suas influências políticas ao nível global.

A influência Chinesa no Brasil é positiva ou negativa?

A interação China-Brasil é moldada por vários fatores tanto inter-relacionados quanto conflitantes. Portanto, ela apresenta consequências positivas e negativas.

Por um lado, o Brasil se beneficia tanto com a infraestrutura necessária para aproveitar seus vastos recursos naturais quanto com as receitas de exportação para a China e demais países que impactados pelo projeto “One belt, One road “. Os efeitos colaterais positivos também ocorrem quando as empresas chinesas estabelecem operações no território brasileiro. Por outro lado, existem aspectos negativos oriundos da parceria Sino-Brasileira. Apesar da afirmação geral de que a relação China-Brasil é um modelo de parceria Sul-Sul, o relacionamento segue o padrão Norte-Sul tradicional [7]. Por exemplo, enquanto a importação chinesa consiste de recursos naturais (minério de ferro e petróleo), proteínas vegetais e animais (soja e carnes) e alimentos semiprocessados (suco de laranja), as exportações chinesas consistem de produtos manufaturados e eletrônicos, de maior valor agregado. Assim, o relacionamento China-Brasil é uma relação clássica Norte-Sul, de trocas econômicas altamente assimétricas, disfarçada de uma parceria Sul-Sul, cujo comércio internacional constuma ser mais equilibrado.

O segundo exemplo do padrão Norte-Sul foi evidenciado pela falta de apoio chinês à promoção do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Tal exemplo é uma negação da cooperação Sul-Sul e “ganha-ganha” que a China tanto propaga aos demais países. O último argumento para classificar a parceria sino-brasileira como uma relação Norte-Sul vem das empresas chinesas, que atuam como multinacionais ocidentais ao investir oportunisticamente em uma ampla gama de indústrias. Dada a vulnerabilidade econômica do Brasil, o país asiático usa seu poderio econômico para trazer o país latino americano para sua área de influência [8]. A China oferece uma oportunidade de desenvolvimento para seus parceiros comerciais, mas que se vem em uma dependência de longo prazo com o país asiático.

Conclusões

O Brasil tornou-se cada vez mais importante para a China devido às suas características políticas e econômicas; ou seja, ser uma potência agrícola, possuir enormes recursos naturais, constituir um mercado doméstico considerável e – o mais importante – gozar de influência regional significativa. Além disso, essa parceria estratégica permite que a China venha exercer influência decisiva na região latino-americana, aprofundando acordos entre comerciais entre chineses e latino americanos.

No entanto, o Brasil não parece estar preparado para o novo mundo centrado economicamente na Ásia, principalmente devido à China e em menor medida ao Japão, à Índia e à Coréia do Sul [9]. Enquanto a economia latino-americana busca apenas os benefícios de curto prazo das negociações transacionais de comércio, a potência asiática possui a perspectiva de longo prazo, focada tanto na garantia de recursos naturais necessários para apoiar seu crescimento econômico quanto no objetivo geopolítico de estabelecer uma rede de aliados na América Latina. Tal estratégia visa contra-atacar o domínio dos Estados Unidos, especificamente em uma região anteriormente sob forte influência de Washington, para estabelecer uma nova ordem mundial, multipolar por natureza [10] [11].

Evodio Kaltenecker é responsável por pesquisa em gestão e educação executiva em diversas escolas internacionais de negócios tais como WU Vienna University of Economics and Business, MCI Management Center Innsbruck, e Samuel C. Johnson Graduate School of Management, da Universidade Cornell. Interesse em estratégia, negócios internacionais e América Latina. Possui MBA pela Harvard University (Harvard Business School) e Ph.D. em estratégia de internacionalização e cadeias digitais de valor pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

 

Referências

[1] Hsiang, A.C., As America Withdraws From Latin America, China Steps in. The Diplomat, Jan 4, 2018. https://thediplomat.com/2018/01/as-america-withdraws-from-latin-america-china-steps-in/. Accessed March 8, 2018.

[2] Leahy, J., Schipani, A., Hornby, L., Zhang, A. Financial Times, Nov 13, 2017. https://www.ft.com/content/1d803686-c48e-11e7-b2bb-322b2cb39656. Accessed March 8, 2018.

[3] Dollar, D. China’s Investment in Latin America. Brookings Institute. January 2017.

[4] Spring, J. China investment in Brazil hit seven-year high in 2017. Reuters. January 2018. https://www.reuters.com/article/us-brazil-china-investment/china-investment-in-brazil-hit-seven-year-high-in-2017-idUSKBN1F7387. Accessed March 8, 2018.

[5] China invites Latin America to take part in One Belt, One Road. Reuters, January 22, 2018. https://www.cnbc.com/2018/01/22/china-invites-latin-america-to-take-part-in-one-belt-one-road.html. Accessed March 8, 2018.

[6] Calamur, K., Tillerson to Latin America: Beware of China. February 3, 2018.  https://www.theatlantic.com/international/archive/2018/02/rex-in-latam/552197/ Accessed March 8, 2018.

[7] China-Brazil Strategic Partnership: Demystifying the Relationship. The Brics Post, Jan 23, 2017.  http://thebricspost.com/china-brazil-strategic-partnership-demystifying-the-relationship/#.Wpb14ujwayI Accessed March 8, 2018.

[8] Casanova, L., Miroux, A., Emerging Market Multinationals Report 2017: Emerging Multinationals in a Changing World. S.C. Johnson College of Business, Dec 2017 https://www.johnson.cornell.edu/Portals/32/PDFs/EMI/2017%20EMR%20Emerging%20Multinationals%20in%20a%20Changing%20World.pdf

[9] Lopes, D. B., Latin America’s Pacific Trap. October 3, 2017. https://thediplomat.com/2017/10/latin-americas-pacific-trap/ Accessed March 8, 2018.

[10] Kaplan, S., China is investing seriously in Latin America. Should you worry? The Washington Post January 24, 2018.  https://www.washingtonpost.com/news/monkey-cage/wp/2018/01/24/china-is-investing-seriously-in-latin-america-should-you-worry/?utm_term=.a43068f0c569 Accessed March 8, 2018.

[11] Kaltenecker, E., A Dragon far from home: The rise of Chinese influence in Latin America and the reasons for South-South collaboration. August 25, 2015. https://southerncrossstrategist.wordpress.com/2015/08/24/a-dragon-far-from-home-the-rise-of-chinese-influence-in-latin-america-and-the-reasons-for-south-south-collaboration/ Accessed March 9, 2018.

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