O Acordo Boeing-Embraer: Consequências para a Indústria Global de Aviação

Introdução
Boeing, a maior empresa aeroespacial do mundo, iniciou negociações em dezembro de 2017 com a Embraer, a terceira maior fabricante global de aviões. A gigante da aviação, baseada em Chicago, no EUA, busca um acordo comercial com a empresa brasileira como parte de uma competição global com sua rival europeia, a Airbus. Boeing e Embraer discutem a ideia de uma joint-venture em que a primeira poderia ter uma participação de até 90% na unidade de negócios responsável pela fabricação de jatos comerciais da segunda. Tal configuração excluiria da transação a unidade de equipamentos militares, de modo a reduzir as preocupações do governo brasileiro em relação aos aspectos de soberania nacional [1].

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Boeing e Airbus estão negociando com fabricantes de jatos de menor porte.
Desde 2006 as linhas aéreas têm priorizado a aquisição de jatos de médio porte e mais eficientes ao invés de grande aeronaves. Tal fato ocorre em função da maior demanda por aviões projetados para rotas mais curtas [2]. Tanto a Boeing quanto a Airbus competem em quase todos os tipos de aeronaves, desde aviões com apenas um corredor interno até aeronaves maiores, que comportam mais de 400 passageiros. No entanto, a Airbus começou sua expansão na direção do mercado de jatos pequenos, com capacidade até 150 passageiros, ao comprar da Bombardier, empresa canadense, a linha de aviões a jato C-Series de médio alcance. Como consequência, a Boeing ficou com uma lacuna em seu portfólio de produtos, quando comparada com a Airbus.

As notícias sobre a aproximação entre a Boeing e a Embraer começaram em outubro de 2017 após o anúncio do acordo entre a Airbus e a Bombardier. Rumores sobre uma possível parceria com a empresa brasileira se intensificaram quando a Boeing perdeu uma ação judicial que tentava bloquear a entrada dos aviões C-Series no mercado norte-americano. Sob influência da Boeing, o Departamento de Comércio dos EUA decidiu que por uma taxação de 300% nos jatos da Bombardier, porém em Janeiro de 2018, em uma decisão surpreendente, a Comissão de Comércio Internacional dos EUA, uma agência reguladora independente, decidiu contra a Boeing e com isso o interesse na negociação com a Embraer aumentou.

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Caso o acordo com a Embraer seja concluído, uma tendência na indústria aeronáutica terá sido confirmada por que o movimento da Boeing copia a estratégia da Airbus com a aquisição de parte da Bombardier [3]. Se as duas transações forem adiante, elas  revolucionarão o cenário da indústria aeronáutica por que estenderão o duopólio Boeing-Airbus para o mercado de aviões de médio porte.

Se no início das negociações todas as opções para o acordo Boeing-Embraer estavam em aberto, atualmente a estrutura mais provável do negócio envolve a criação de uma joint venture focada no desenvolvimento e comercialização de jatos de médio porte. A Boeing precisa da aprovação do Governo Brasileiro para uma parceria com a Embraer devido às preocupações com a transferência de tecnologia militar sensível e à proteção da propriedade intelectual dos programas militares da Embraer, tais como o KC- 390, um avião de transporte. Os detalhes técnicos desse equipamento incluem tecnologia fly-by-wire, algoritmos de carga e descarga que permitem que a aeronave seja rapidamente reconfigurada, e tecnologia computadorizada para liberação aérea de carga (CARP), que integrada com o sistema fly-by-wire fornece maior precisão na liberação da carga, reduzindo assim a demanda sobre a tripulação. A aeronave KC-390 também adota as soluções tecnológicas desenvolvidas para as aeronaves comerciais da família 190. Embora a Boeing possua competência tecnológica para desenvolver  tecnologias semelhantes, o acordo com a Embraer daria acesso a uma tecnologia pronta para comercialização, porque já passou pelas fases arriscadas e dispendiosas de desenvolvimento de produto e testes.

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Os benefícios para a Boeing com o acordo com a Embraer
Existem várias razões pelas quais um acordo com a Embraer faz sentido para a Boeing. A gama de benefícios inclui a integração de ativos, tais como plantas, o aumento da capacidade de prestação de serviços, a complementaridade de linhas de produtos e a afinidade cultural entre as duas empresas, fato que facilitaria qualquer colaboração mais profunda entre ambas organizações. Segue uma breve explicação sobre cada tópico.

a. Resposta estratégica ao movimento da concorrência: após o acordo Airbus-Bombardier, a aproximação Boeing-Embraer seria uma resposta competitiva clássica ao movimento estratégico efetuado pela Airbus. Assim, a Boeing replicaria o mesmo raciocínio empregado por europeus e canadenses, apesar da insistência da empresa norte-americana em afirmar que as discussões com a Embraer não foram motivadas pela aquisição pela Airbus da linha de jatos C-Series da Bombardier.

b. Portfolio de produtos: o negócio conferiria à Boeing um portfolio mais amplo de aeronaves, que poderia ser vendido através de sua própria rede global de vendas. Por exemplo, a Embraer desenvolveu o avião de transporte KC-390 e já fornece o avião de ataque leve A-29 Super Tucano aos EUA, Brasil, Chile, Equador e Colômbia, bem como para as forças aéreas afegãs e libanesas. Em de agosto de 2017 a empresa brasileira recebeu pedido firme de compra de 12 unidades da Nigéria e em 2013 a Embraer lançou a linha de jatos E2, uma nova geração de equipamentos que competem diretamente com a linha C-Series, agora pertencente à Airbus.

c. Capacidade de fabricação: a parceria com a Embraer proporcionaria à empresa dos EUA acesso à capacidade de produção de baixo custo e altamente qualificada dado que a maior parte da capacidade produtiva da Embraer está situada no Brasil. Em uma comparação entre Embraer e Bombardier, em um estudo de caso de 1999, o custo de cada empregado da empresa brasileira era de aproximadamente US$27.200/ano, ao passo que o custo de cada empregado da empresa canadense era de US$55,000/ano [4]. Assim, a Boeing teria vantagens econômicas ao arbitrar diferenças de custos trabalhistas nos EUA e no Brasil.

d. Eficiência da cadeia de suprimentos: o acordo permitirá maior eficiência na cadeia de suprimentos da empresa estadunidense, dado que projetos, peças e serviços poderiam ser desenvolvidos em conjunto [5] com obtenção de economias de escala e de escopo [6].

e. Compatibilidade cultural: As equipes técnicas das empresas se conhecem razoávelmente bem devido aos acordos de cooperação existentes, como por exemplo o que gerou o desenvolvimento do KC- 390, que irá substituir e competir com o Lockheed Martin C-130 Hercules e o cargueiro militar KC-130.

Os benefícios para a Embraer com o acordo com a Boeing
Do ponto de vista da empresa Brasileira, o acesso ao mercado, capacidade de produção e desenvolvimento técnológico seriam as principais áreas beneficiadas pelo acordo.

a. Acesso ao mercado: Os principais clientes da Embraer são as grandes empresas áreas que utilizam estratégia de baixo custo. Com o apoio da Boeing e de sua influência política, a linha de equipamentos E-Jets seria mais facilmente vendida.

b. Transferência de produção para o Brasil: a Boeing poderia transferir para o Brasil parte da produção de aeronaves para aproveitar a capacidade instalada de fabricação de baixo custo da Embraer; assim, a empresa brasileira poderia se tornar fornecedor de Nível 1 de muitos conjuntos importantes dos aviões da Boeing, como trem de pouso e sistema eletrônicos [7].

c. Efeitos de transbordamento: O ecossistema tecnológico em torno das plantas da Embraer tende a se beneficiar com a transferência de tecnologia que será transplantada da Boeing. Várias pequenas e médias empresas de cunho tecnológico poderão se tornar fornecedores Nível 2, tanto para a Boeing quanto para a Embraer.

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Obstáculos potenciais ao negócio
O governo brasileiro tem o direito de veto devido à posse de golden shares, uma categoria especial de ações que permite ao Brasil o direto de veto sobre qualquer decisão estratégica envolvendo a Embraer e qualquer ação que possa interromper projetos militares. Esta é a primeira das três incertezas que envolve o negócio.

Outra incerteza reflete a importância da Embraer em seu papel no comércio exterior do Brasil, porque a empresa é o terceiro maior exportador do país. Adicionalmente, a empresa possui status importante por ser uma das principais multinacionais brasileiras, atuando em um setor que possui fortes laços governamentais por todo o mundo, como nos EUA, China, Rússia, França, Reino Unido e outras economias importantes.

O terceiro potencial impedimento ao negócio vem da importância da empresa para o desenvolvimento tecnológico e liderança do cluster aeroespacial localizado em São José dos Campos. O governo brasileiro provavelmente bloqueará a transferência de tecnologia militar e a extinção empregos de mão-de-obra qualificada, especializada e altamente remunerada.

O acordo pode criar uma barreira de entrada para concorrentes chineses, russos, indianos e japoneses.
Boeing, apoiada pela administração Trump, procura a integração com empresas menores depois que a Airbus se tornou ainda mais globalizada após o acordo com a Bombardier. Os dois fabricantes percebem que a concorrência aumentará com a provável entrada de novos concorrentes no mercado que tanto a Boeing quanto a Airbus dominam há décadas. A chinesa Comac, por exemplo, tem planos de competir globalmente em breve. Se a Boeing, a Embraer, e o governo brasileiro chegarem a um acordo, a cooperação existente entre a Embraer e a Comac provavelmente terminará devido aos riscos de transferência de tecnologia para a firma chinesa. Além disso, a participação da Embraer no gigantesco mercado chinês provavelmente irá diminuir.

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A Chinesa Comac atualmente está desenvolvendo seus próprios aviões C919 e espera produzí-los em massa a partir de 2021. A empresa também coopera com a russa Rostec State Corporation para o desenvolvimento de uma aeronave de longo alcance. Além disso, a russa Sukhoi fabrica a linha de aeronaves SuperJet 100, construída para competir diretamente com os E-Jets da Embraer e os C-Series da (agora) Airbus. Enquanto isso, a japonesa Mitsubishi tem a ambição de entrar no mercado de aeronaves comerciais com seu jato regional MRJ, e a Indiana Hindustan Aeronautics Limited (HAL) ambiciona papel mais relevante na indústria aeroespacial global.

Conclusões
Executivos envolvidos no acordo, tanto pelo lado da Boeing quanto pelo lado da Embraer, continuam a negociar com o governo brasileiro. No entanto, a janela de oportunidade para acordos está se estreitando haja vista a proximidade das eleições presidenciais brasileiras marcadas para outubro de 2018. Espera-se que a oposição política ao negócio aumente em virtude do risco de transferência de tecnologia, fato que colocará ainda mais pressão sobre a Boeing e a Embraer para encontrar uma solução satisfatória rapidamente.

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A importância da Embraer para o Brasil e as implicações tecnológicas e geopolíticas do setor aeroespacial dificultam o desenho da solução. Uma unidade de negócios focada no segmento de defesa e independente da Embraer, controlada pelo Estado Brasileiro, deve fazer parte da solução.  ser parte da solução. Além disso, o acordo deve abordar a questão dos postos de trabalho relativamente bem remunerados, localizados em São José dos Campos (SJC), principal sitio de produção da Embraer. A receita para o sucesso das negociações deve incluir a obrigatoriedade de manutenção de postos de trabalhos em território brasileiro e a utilização do modelo de negócios entre Airbus-Bombardier, que criou uma joint venture focada em jatos comerciais e excluiu a unidade de desenvolvimento de tecnologia militar da Bombardier.

Nota: Esse artigo foi publicado inicialmenye em inglês, no Journal of Political Risk e sua versão original pode ser acessada aqui.

Referências bibliográficas:

[1] Schipani, Andres; Hollinger, Peggy, Boeing-Embraer focus on commercial unit tie-up, Financial Times, Feb 6, 2018. https://www.ft.com/content/0e0c378a-0b5c-11e8-8eb7-42f857ea9f09. Accessed Feb 12, 2018.

[2] Wall, Robert. Era of Jumbo Jet Nears End as Airbus Slashes A380 Production. The Wall Street Journal, July 2017. https://www.wsj.com/articles/airbus-earnings-hit-by-lower-aircraft-deliveries-1501138056. Accessed Feb 12, 2018.

[3] Insinna, Valerie, Boeing still hammering out a deal with Embraer on potential tie-up. Defense News, January 31, 2018. https://www.defensenews.com/air/2018/01/31/boeing-still-hammering-out-a-deal-with-embraer-on-potential-tie-up/ Accessed Feb 12, 2018.

[4] Ghemawat, Pankaj, Herrero, Gustavo, Monteiro, Luis Felipe. Embraer: The Global Leader In Regional Jets. Harvard Business School Case 9-701-008. June 30, 2009.

[5] AirForce Technology. KC-390 Medium Weight Transport Plane  http://www.airforce-technology.com/projects/kc-390/. Accessed Feb 12, 2018.

[6] Kaltenecker, Evodio. The Boeing-Embraer deal: a partnership that may transform the aircraft industry. December 28, 2017. https://wp.me/p304Vy-F1  Accessed February 12, 2018.

[7] Kaltenecker, Evodio. Boeing vs. Embraer: Internationalization of Manufacturing and Global Value Chains. January 21, 2015. https://wp.me/P304Vy-rk. Accessed February 12, 2018.

2 Thoughts

  1. Inegável a potencialização comercial como apoio da Boeing, porem o segmento militar é sensível e merece proteção. Uma unidade de negócios focada no segmento de defesa e independente da Embraer, controlada pelo Estado Brasileiro é dispendiosa, no entanto nos EUA as empresas privadas desenvolvem e fornecem tecnologia militar para o próprio governo. Por que não usarmos o mesmo modelo aqui?

    Com certeza o acordo deve abordar a obrigatoriedade de manutenção de postos de trabalhos em território brasileiro o que na verdade representaria economia para a própria Boeing.

    A utilização do modelo de negócios entre Airbus-Bombardier, que criou uma joint-venture focada em jatos comerciais e excluiu a unidade de desenvolvimento de tecnologia militar da Bombardier, poderia ser adotada inicialmente até o amadurecimento da ideia de desenvolverem tecnologia não só para o governo brasileiro, mas também para outros países que quisessem compra-las.

    1. Olá Roberto Gaschler, obrigado pelo comentário muito pertinente. Ficarmos no aguardo do desfecho da negociação. Abs, EK

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