Multinacionais Emergentes em um mundo em mudança – versão Redux do relatório EMR 2017 (EMI Cornell)

A edição de 2017 do relatório do Instituto de Mercados Emergentes [1] da Johnson College of Business, Universidade Cornell, é uma fonte de dados e análises importante para investidores e estudiosos em mercados emergentes. Com foco nos chamados E20, os vinte mais importantes mercados emergentes selecionados pelo tamanho das suas economias, demografias, e influência no comércio mundial, o relatório (download aqui) discute como tais empresas multinacionais respondem estratégicamente às mudanças recentes nos mercados globais e à importância de tal grupo com fonte de investimento externo direto em todo o mundo.

De acordo com as autoras Lourdes Casanova e Anne Miroux, o grupo E20 é formado por China, Índia, Brasil, Coréia do Sul, Rússia, México, Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, Argentina, Polônia, Tailândia, Nigéria, Irã, Egito, Filipinas, Malásia, África do Sul, Colômbia e Chile. Tal grupo, formado por mercados com fundamentos e tamanhos distintos, são países que possuem resiliência para superar o novo paradigma de baixo crescimento do comércio global, baixo valor das commodities, fortes tendências protecionistas e altas tensões geopolíticas em várias partes do mundo. Por exemplo, a contribuição do E20 para o aumento do PIB mundial subiu de 30% em 2010 para 48% em 2016, medido em paridade de poder de compra (PPP). Além de aspectos puramente econômicos, o E20 apresentou liderança sem precedentes ao criar duas instituições multilaterais: o Banco Asiático de Infraestrutura (AIIB, em inglês), e o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, em inglês), liderados pela China e pelos países do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Inda, China e África do Sul) respectivamente.

Destacamos as seguir as principais conclusões do relatório são:

  1. Descentralização de poder em relação ao sistema de Bretton Woods, que representa uma mudança de distribuição de soft power [2] além do G7. O conceito Beijing Consensus, ainda que não citado explicitamente ao longo do texto, é apresentado pelas autoras ao apresentar as carteiras de empréstimos e os níveis de capitalização do AIIB e NDB, mesmo em comparação com os mesmos indicadores de instituições já estabelecidas há mais tempo como o Banco Mundial e o Banco de Desenvolvimento da Ásia.
  2. Mudança na direção do investimento externo direto. Se no passado as economias E20 foram receptoras de investimento externo direto (FDI), atualmente esse grupo de países tornou-se investidor global. Por exemplo, antes da crise global de 2008, o E20 respondia por apenas 7% do investimento externo direto, ao passo em que 2016 tal grupo respondeu por 19% (aproximadamente US$ 274 bilhões) do fluxo global de investimento.
  3. O papel dos Estados no fluxo de investimento direto continuará muito relevante. As autoras apresentam os estudos de casos de três países (Brasil, China e Coreia do Sul) que desenvolveram políticas para atrair investimento externo. China e Coreia do Sul destacam-se entre as economias emergentes em relação à eficiência de suas reformas econômicas, institucionais e políticas, que permitiram o investimento de suas empresas em outros países.
  4. Ao longo dos últimos 15 anos, as empresas multinacionais de mercados emergentes (EMM) apresentaram um crescimento meteórico relativo à participação no ranking das 500 maiores empresas globais [3]. Atualmente 149 empresas EMM compõem tal ranking, um triplicando tal valor em apenas oito anos.
  5. As EMM bem-sucedidas eram, em geral, líderes em eficiência e produtividade devido à abundância de mão de obra barata e disponibilidade de recursos naturais. Atualmente, algumas poucas EMM focam em criação e desenvolvimento de marcas globais. Lenovo (laptops), Samsung e Huawei (smartphones) e Havaianas (sandálias) são exemplos de atuação de EMM em branding de marcas globais. Contudo, as autoras reforçam que as EMM ainda precisam trilhar um caminho muito longo para que suas marcas possuam reconhecimento global.

O relatório apresenta uma detalhada comparação entre EMM e seus concorrentes de países do G7 e demais economias mais desenvolvidas. Fica claro que a participação da China e de suas empresas são significativamente superiores às dos demais países emergentes e de suas empresas. A gráfico abaixo, extraído do relatório, apresenta o “Efeito China” na análise da participação das EMM no ranking Fortune Global 500.

Crescimento da participação de EMM no ranking Global Fortune 500

rise EMM

Fonte:  Casanova, Miroux, EMR 2017

O relatório EMR 2017 analisa também o processo de internacionalização de multinacionais brasileiras e colombianas. As autoras detalham as empresas Marcopolo,  Petrobrás, Eurofarma e Embraer (links para artigos sobre a Embraer aqui e aqui). Apesar do contexto atual da economia brasileira, que apresenta ativos baratos devido à crise político-institucional atualmente no país, as EMM brasileiras seguem seu caminho de internacionalização [4], como por exemplo o da  Natura (artigo aqui), com sua recente aquisição da The Body Shop [5]. No capítulo relativo às empresas colombianas, Casanova e Moroux discutem as empresas ISA, EEB e EPM (energia), Argos (cimento), Grupo Nutress (alimentos), e Bancolombia (serviços financeiros) são analisados. O relatório termina ao analisar as oportunidade e desafios de energia na Ásia.

O EMR 2017, publicado pelo Emerging Markets Institute (aqui) é um documento imperdível para internacionalista focados no estudo de multinacionais emergentes. Aguardamos desde já o relatório 2018.

Referencias

[1] Emerging Market Multinationals report (EMR) 2017: Emerging Multinationals in a Changing World. https://www.johnson.cornell.edu/Portals/32/EMI%20Docu/EMR/Emerging%20Multinationals%20in%20a%20Changing%20World.pdf

[2] Joseph Nye, Soft Power: The Means to Success in World Politics

[3] Fortune Global 500, http://fortune.com/global500/ extracted Jan 4th, 2018.

[4] Fundação Dom Cabral https://estrategiaparatodos.wordpress.com/2016/10/10/natura-a-problematica-expansao-internacional-de-uma-multinacional-brasileira/ extracted January 4th, 2018

[5] Financial Times https://www.ft.com/content/10b37676-5b60-11e7-9bc8-8055f264aa8b extracted January 4th, 2018

2 Thoughts

  1. Thank you very much Evodio for a great summary of the EMI report. We are very happy having you as part of the EMI team and the very fruitful collaboration

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