Boeing e Embraer: estratégia nos ares

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Anatomia de uma transação:

Boeing, a maior empresa aeroespacial do mundo, iniciou negociações com a Embraer, terceira maior fabricante de aviões, para combinar os ativos das duas empresas. As opções estão abertas e incluem desde a aquisição total da empresa brasileira (cenário menos provável) até a criação de uma Joint Venture (JV) dedicada ao desenvolvimento e comercialização de uma família específica de produtos, a de jatos de porte médio. Uma eventual união entre as empresas  criará uma gigante da aviação mundial, com atuações na aviação regional, na de longa distância, na aeroespacial e na militar.

Muitas incertezas pairam sobre o negócio. A primeira envolve o Estado brasileiro, que possui direito de veto devido à posse de golden shares, tipo especial de ação que permite o veto por parte do Estado Brasileiro de qualquer decisão estratégica envolvendo a Embraer. A segunda diz respeito à importância da empresa no comércio exterior, dado que a Embraer é a terceira maior exportadora do Brasil, atrás apenas da Vale e da Petrobras. A terceira razão vem da importância da empresa no desenvolvimento tecnológico e na líderança do cluster aeroespacial situado em São José dos Campos. Tal fatoexplica por que muito provavelmente o governo federal abrirá mão do controle estratégica da empresa, sobretudo da unidade de negócios que envolve tecnologia militar. Em quarto lugar existe o viés nacionalista, ainda muito presente na economia brasileira. Sendo a empresa uma campeã nacional, o componente “orgulho nacional” relativo à Embraer pode impedir um acordo comercial sobretudo em setor onde o governo federal costuma possuir forte influência. Assim, algum tipo de associação comercial entre as empresas ou até mesmo uma JV pode ser preferível a uma aquisição total da empresa brasileira pela norte-americana.

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Por que o negócio faz sentido do ponto de vista estratégico?

A pergunta que deve ser feita não é por que a Boeing propôs associação com a Embraer, mas por que levou tanto tempo para essa proposta ser concretizada. Tal reflexão faz sentido por que há apenas alguns meses a Airbus, principal concorrente da empresa norte-americana comprou o programa de jatos regionais da Bombardier, fabricante Canadense de aeronaves de médio alcance (como por exemplo a C-series), com capacidade para transportar aproximadamente 120 passageiros. É importante lembrar que a Bombardier é concorrente direta da Embraer no transporte aéreo no segmento de jatos de médio porte (como por exemplo a família dos E-jets). Por mais de 30 anos, Embraer e Bombardier dominam o mercado de fabricação de jatos específicos para transporte regional, segmento dominado por operadores menores que empregam pilotos, mecânicos e equipes de bordo próprios, com salários significativamente menores.

Em função do acordo Airbus-Bombardier, a proposta Boeing-Embraer seria uma resposta estratégica clássica, replicando o mesmo racional empregado pelos europeus e canadenses. Maior rival da empresa norte-americana, o consórcio europeu Airbus passou a atuar no segmento de aeronaves de médio alcance ao comprar o programa de jatos regionais da Bombardier. No segemnto de grandes aeronaves, a Airbus e a Boeing são as principais fabricantes de aeronaves comerciais para voos de longa distância, algo similar com o que ocorre com a Embraer e a Bombardier.

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Por quê o negócio faz sentido para a Boeing?

Primeiro, uma parceria com a Embraer ampliaria o portfolio de produtos da Boeing, sobretudo no segmento de jatos comerciais pequenos. Segundo, com uma eventual parceria com a Embraer, a empresa estadunidense teria acesso capacidade produtiva de baixo custo e altamente qualificada. Terceiro, a Boeing dificultaria a cooperação existente entre Embraer e Comac, um competidor chinês da própria Boeing. Em quarto lugar, um acordo Boeing-Embraer criaria barreias para potenciais novos entrantes, tais como a Sukhoi, da Rússia. Isso ocorre porque tanto a Boeing quanto a Airbus possuem braços financeiros fortes que permitem o financiamento bastante favorável de aeronaves para operadores iniciantes e/ou de pequeno porte de países emergentes. Não está claro como a Sukhoi poderia desenvolver musculatura financeira equivalente. Por fim, ocorrerá aumento de eficiência na cadeia de suprimentos da empresa norte-americana (ver link aqui), dado que projetos, peças e serviços poderiam ser desenvolvidos em comum.

Por que o negócio faz sentido para a Embraer?

Naturalmente, a lista de benefícios para a Embraer depende do tipo de acordo a ser desenvolvido. De modo geral, entende-se que a empresa brasileira poderia se beneficiar de acordos de transferência de tecnologia e acesso à maior musculatura comercial da Boeing. Economias de escala e de escopo são fundamentais em um mercado tão intensivo em capital e tecnologia como o do setor aeronáutico/aeroespacial. Independentemente de vieses pró-mercado e nacionalista, não parece fazer sentido impedir que um investimento externo, como o vindo da Boeing, que poderá transferir tecnologia para o Brasil.

O que pode dar errado?

Como em qualquer parceira, fusão ou aquisição, as diferentes culturas organizacionais podem ser incompatíveis. Boeing e Embraer já possuem vários acordos de cooperação tecnológica, como por exemplo no desenvolvimento do KC-130 (cargueiro aéreo de tamanho médio que irá substituir e concorrer com o avião militar C-130), porém a taxa de fracassos em fusões transnacionais costuma ser muito alta.

Conclusão

Dado o contexto da indústria, as implicações tecnológicas e geopolíticas do setor aeroespacial, as apostas são que as empresas conseguirão desenvolver algum tipo de acordo, sobretudo em relação à unidade de negócios de jatos médios da Embraer. Desse modo, os executivos minimizariam a aversão do governo brasileiro quanto à crítica de perda da “soberania nacional”.  Outra alternativa será a cópia da negociação Airbus-Bombardier, que criaram uma JV focada em jatos comerciais e excluindo a porção que desenvolve tecnologia militar.

Fontes:

Financial Times, The Wall Street Journal, Reuters, Bloomberg, site de Relação com investidores da Embraer e Boeing, Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

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